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Dr. Lucas Menezes
Sono

Melatonina: para que serve e quando ajuda a dormir

Melatonina é sinal de horário, não sonífero.

4 min de leitura

Em 10 segundos

  1. Melatonina é um sinal de horário para o relógio do corpo, não um sonífero.
  2. Ajuda mais em jet lag, sono atrasado e em crianças autistas.
  3. Na insônia comum, a terapia cognitivo-comportamental vem primeiro.

Você deita às onze, o corpo está cansado e a cabeça não desliga. Uma hora depois, ainda está olhando o teto. Na farmácia, a melatonina parece a saída mais simples.

Ela ajuda bem em alguns casos e pouco em outros. Saber qual é o seu evita frustração e riscos.

Melatonina: para que serve

A melatonina é um hormônio produzido no cérebro que ajuda a regular o ciclo de sono e vigília, o relógio biológico (7).

Por isso ela costuma funcionar melhor quando o problema é de horário. Quando o problema é a cabeça acelerada na hora de deitar, o efeito tende a ser pequeno (1, 2).

Quando a melatonina ajuda a dormir

  • Jet lag. Numa revisão Cochrane, nove de dez ensaios mostraram menos sintomas em voos que cruzam cinco fusos ou mais. O horário importa: tomada na hora errada, pode atrasar a adaptação (3).
  • Sono atrasado. É quem só consegue dormir de madrugada e acordar tarde. A academia americana de medicina do sono sugere melatonina em horário planejado nesses casos (2, 5).
  • Crianças e adolescentes autistas. Uma meta-análise mostrou que ela reduz o tempo para pegar no sono e aumenta o sono total em transtornos do neurodesenvolvimento (5).

Num ensaio com 125 crianças e adolescentes, quase todos autistas, o sono não tinha melhorado só com mudanças de rotina. Com melatonina, dormiram em média cerca de meia hora a mais que com placebo (6).

Melatonina é sinal de horário, não sonífero. Sem rotina, ela ajuda pouco.

Insônia: o que fazer antes do remédio

Na insônia comum, o efeito é modesto. Numa meta-análise, a melatonina reduziu em cerca de sete minutos o tempo para pegar no sono e aumentou o sono total em cerca de oito minutos (1).

A diretriz europeia de insônia de 2023 é clara: a terapia cognitivo-comportamental para insônia, a TCC-I, é o primeiro tratamento para adultos de qualquer idade (4). Ela pode ser feita presencialmente ou em formato digital.

A TCC-I trabalha os hábitos e os pensamentos que mantêm a insônia. Na prática, costuma incluir:

  • Horário fixo para acordar, mesmo no fim de semana.
  • Menos tempo acordado na cama, que passa a ser só para dormir.
  • Luz natural de manhã e telas fora da cama.
  • Um jeito de lidar com a preocupação antes de deitar.

A mesma diretriz não recomenda a melatonina de liberação rápida para tratar insônia. A de liberação prolongada pode ser usada por até três meses em pessoas a partir de 55 anos (4).

Riscos da automedicação com melatonina

Em 2021, a Anvisa autorizou a melatonina como suplemento alimentar, vendido sem receita e só para maiores de 19 anos (7).

Pela regra, o rótulo precisa avisar que ela não é para gestantes, lactantes, crianças e quem faz atividades que exigem atenção constante. Quem tem alguma doença ou usa remédio deve falar antes com o médico. Nenhuma alegação de benefício foi aprovada (7).

Nos Estados Unidos, as ingestões de melatonina por crianças notificadas aos centros de intoxicação cresceram 530% em dez anos, a maioria acidentais em menores de cinco anos (8). Guarde o frasco fora do alcance delas.

Relatos de caso sugerem cuidado em pessoas com epilepsia e em quem usa remédio para afinar o sangue (3). E a insônia pode ser sinal de outra coisa, como apneia do sono, que pede exame próprio (4).

Como o Método CUIDAR olha para o sono

Na saúde mental interativa, sono e humor se alimentam. Por isso o sono entra já no pilar Compreender: diário de sono e humor por duas semanas, escala de insônia e polissonografia quando há ronco, pausas na respiração ou sono de dia.

No pilar Individualizar, o plano de sono segue a base da TCC-I: horário fixo de acordar, menos tempo na cama, luz de manhã e sem telas na cama. O remédio, quando indicado, é uma parte.

Na trilha de autismo, a melatonina entra no pilar Individualizar quando o diário mostra indicação, e é reavaliada no retorno. Dose e horário não se decidem por aqui, e sim na consulta.

Leia também: Ansiedade: sintomas no corpo e Depressão: sintomas físicos.

  • Escolha um horário para acordar e mantenha por 7 dias, inclusive no fim de semana.
  • Anote a hora de deitar, de pegar no sono e de acordar.
  • Abra a janela ou saia na luz logo depois de acordar.
  • Se já usa melatonina, leve a embalagem para a consulta.

Referências

  1. Ferracioli-Oda E, Qawasmi A, Bloch MH. Meta-analysis: melatonin for the treatment of primary sleep disorders. PLoS One. 2013;8(5):e63773.
  2. Auger RR, Burgess HJ, Emens JS, Deriy LV, Thomas SM, Sharkey KM. Clinical practice guideline for the treatment of intrinsic circadian rhythm sleep-wake disorders: advanced sleep-wake phase disorder (ASWPD), delayed sleep-wake phase disorder (DSWPD), non-24-hour sleep-wake rhythm disorder (N24SWD), and irregular sleep-wake rhythm disorder (ISWRD). An update for 2015. J Clin Sleep Med. 2015;11(10):1199-236.
  3. Herxheimer A, Petrie KJ. Melatonin for the prevention and treatment of jet lag. Cochrane Database Syst Rev. 2002;(2):CD001520.
  4. Riemann D, Espie CA, Altena E, Arnardottir ES, Baglioni C, Bassetti CLA, et al. The European Insomnia Guideline: an update on the diagnosis and treatment of insomnia 2023. J Sleep Res. 2023;32(6):e14035.
  5. Salanitro M, Wrigley T, Ghabra H, de Haan E, Hill CM, Solmi M, et al. Efficacy on sleep parameters and tolerability of melatonin in individuals with sleep or mental disorders: a systematic review and meta-analysis. Neurosci Biobehav Rev. 2022;139:104723.
  6. Gringras P, Nir T, Breddy J, Frydman-Marom A, Findling RL. Efficacy and safety of pediatric prolonged-release melatonin for insomnia in children with autism spectrum disorder. J Am Acad Child Adolesc Psychiatry. 2017;56(11):948-57.e4.
  7. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Anvisa autoriza melatonina na forma de suplemento alimentar. Brasília: Anvisa; 15 out 2021.
  8. Lelak K, Vohra V, Neuman MI, Toce MS, Sethuraman U. Pediatric melatonin ingestions: United States, 2012-2021. MMWR Morb Mortal Wkly Rep. 2022;71(22):725-9.

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